quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Compadecida


Era iminente o enfretamento:
Não me chame de vaca!
Ela, sagrada, de quatro. Eu!
Só tenho essa mentira que te faz Deus.
(e vais ao céu por bruxaria)
Meus olhos não estão nos teus,
Então, não me vigie o coração.
Tens minha nuca limpa, nas unhas,
Sobre pensamentos sujos
Que sorrindo não desperdiço
Entre o algodão áspero do lençol
E o teto arruinado,
O tremor das tuas coxas,
O temor do homem, o tempo.
Imponha-me botas e punhos,
O gosto da virtude que imaginas.
Brada tua virilidade que me compadeço!
Eu, inútil na fotografia, me apago
E morro de inocência apunhalada.
Fodo contigo, por pecado meu e imprudência tua,
Que nunca me amou santa
E jamais me desejou puta.



5 comentários:

Cecília Romeu disse...

Ira, minha linda aquariana!
Saudades de ti e de tuas letras! Mas entendi o motivo, gostei e espero fotos :)

Compadecer-se já é uma espécie de intercinese, espera entre um e outra ciclo, que também acaba por ser outro ciclo, ou uma pausa que revela várias facetas: quando nos damos conta da verdade, mas mesmo assim estamos dispostos ao soco que ela nos dará.
Nem uma coisa, nem outra.
E ficamos em trapos, ou ficamos em farrapos dentro de uma história. Num mesmo ciclo de nadas.

Beijos!

Cris de Souza disse...

Fodástica! A introdução lembrou-me o desfecho de "Aviso da lua que menstrua" da Lucinda.

Beijíssimo, queridófera!

*Senti tua falta.

jorge pimenta disse...

ter é o mais perfeito malabarismo com que nos enganamos todos os dias...
"era iminente o enfrentamento" e nem a força indomável do cavalo consegue calcar a mentira com que se menstruam os corpos nessa sede de sangue com que iludimos o que um dia se convencionou chamar de amor e uns tantos iluminados confundem com a felicidade... a felicidade, essa outra mentira com que nos enganamos para podermos adivinhar o que seja isso de ser-se feliz.
levo comigo esse final em que se anunciam desejos e se desassombram divindades:
"que nunca me amou santa
e jamais me desejou puta"

ufa...

beijo grande, mulher-poema!

AC disse...

Em grande, Ira!
(Imagino-me num bate-papo consigo, um cigarro, um copo na mão...)

Beijo :)

Rob Novak disse...

Muito bom, Ira. Li, cantei e gostei.
Bjo