quarta-feira, 5 de março de 2014

Como Se Fosse Verdade

Como se tragando os gestos
Ensaiamos falar
Como se fingindo honestos
Inventamos amar
Eu que nunca presto
Ele que sabe negar
Tratamos de cobrir os nossos tetos,
Vidros indiscretos, sobras infames
Dos vexames que não dormem
Em paz                             

Como se amando em fugas
Fraquejamos voltar
Como se traçando rugas
Suportamos ficar
Eu que sempre outra
Ele que nunca será
Deixamos de supor as nossas caras,
Faces tabajaras, restos inexatos
Dos retratos arruinados
Por serem reais

Como se jurássemos poemas
Construímos versos para o amor
Viver seus dilemas cordiais




6 comentários:

Assis Freitas disse...

jurar poemas
bela conjugação


beijoo

jorge pimenta disse...

inventar versos para saber viver: eis a mentira suprema dos poetas. sim, porque eles mentem...

beijinho, ira de tantas das palavras que me vestem... (quase) sem mentiras.

Eleonora Marino Duarte disse...

«Eu que sempre outra
Ele que nunca será»

só aqui já tenho o poema que vim buscar.

a força de suas palavras está na forma como você expressa os sentimentos mais cruéis. amo!

o Melodia embalou muito bem a leitura, querida.

adorei a nova face do beco.

um beijo bem grande.

Anna Amorim disse...

cada verso ressoou sentidos. Destaco estes:

Como se amando em fugas
Fraquejamos voltar
Como se traçando rugas
Suportamos ficar

Beijos, Ira

AC disse...

Ira,
Por aqui sinto-me sempre num jardim de díspares sensações: a aspereza do real, o esguichar de balofos sangues, a dignidade do olhos nos olhos...

Beijo :)

Gyzelle Góes disse...

Como se fosse amar, fizemos poesia. Eu adorei, você escreve muito bem