sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Parede Falsa Para (A)Fins Poéticos





Quero a destruição das lâmpadas, dos sóis, faróis, olhos, dessas luzes que tudo sentem

Não me importa a vela acesa que se dispõe vigiar meu defunto

Quero uma parede preta, na escuridão, sem sombras de objetos

Sou um dos mais inúteis dessa casa equivocada e anêmica

Penso em me jogar no lixo, assim, talvez, algum cão vira-lata me descubra e, achando gostosinha minha

carne, me coma até os ossos fracos

Garantindo, deste modo, calma no estômago por mais um dia e alguma serventia a essa nossa vida

ordinária

Quero estar de cara colada a parede

Passar toda língua em sua mentira, fria, caiada, concreta, de restrições e defesas, longe dos córneos 

daqueles bem orientados e suas tribos canibais, como se fosse possível acreditar em utopias

Desejo apenas uma parede lisa, sem quadros, boca ou nariz,

Um esconderijo a me poupar idéias medonhas saídas de cabeças com mandíbulas toscas,

Entretanto, essa paisagem não passa de uma bela concepção

Mas que, por azar dos outros, não impede minha incompetência humana

De vazar pelo buraco do rato apodrecendo-me cada vez mais de contato

Impregnando seus desprezos com fragmentos meus

Os estilhaços se confessam dementes diante da arrogância e fissuram tudo que se imagina perfeito

Cada naco de loucura que os perfura tem um poeta desorientado dentro

7 comentários:

John L.S. disse...

Insano. Boa construção...

John L.

eurico portugal disse...

a dor que morde atirando para os dejetos da palavra o que sobra do corpo, da vida, e das suas malfeitorias.
se já nem o sorriso conhece o rosto quem nos há de roubar a própria morte?

beijo e dois arrepios, querida ira!

Marcelo R. Rezende disse...

Belo.
Tenho notado sua transição de fêmea a fera. Acho que ambas já viviam juntas, mas a outra dava mais a luz. Gostando desse estado de espírito.

Beijo, Ira!

Assis Freitas disse...

pura iconoclastia, diria
em se tratando de poesia



beijo

Nilson Barcelli disse...

De poeta e de louco todos temos um pouco...
Gostei muito das tuas palavras. Excelentes.
Ira, tem um bom fim de semana.
Beijo.

dade amorim disse...

Poesia tem muito a ver com "cada naco de loucura".

Belo e bem desenvolvido, Ira.

Bj bj

Tania regina Contreiras disse...


Fui nadando do primeiro ao último verso, respirei nessa última linha, como se tivesse encontrado um ponto de luz, um álibi. ÁLIBI...tua poesia é o meu sempre.

Beijos,