quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Balada do Quase Último Cigarro







Meu cigarro queima na boca
Fingindo os mesmos acúmulos de cinzas
Em breve serão nada
Longas fumaças que, dançando semelhanças, se desfazem,
No ar agitado, até não serem mais reconhecidas
Que coisa lamentável é à hora do fim!
Esse estado decadente dos dentes, os pulmões fustigados,
Tudo tão traído desde o primeiro choro
Ah, quanto tempo se passou?
Quase nada! Quase tudo! Quase!

Eis um rosto que sabe ser sozinho
Afastando moscas
Chamando seus mortos para assuntos interrogativos
Por pura simpatia aos monólogos
Rosto puído de retrato que, entre ausências e ausências,
Debruça-se, um tanto fora da moldura,
Para ouvir o canto macio do silêncio

Acontece com quem suspende as cortinas dos sonhos
Levar água fria na cara e, despertando um estado
Consciente de crueza, observar o espetáculo desnudo,
O que não é suficiente para entender qualquer drama,
Mas sempre ajuda a encarar o texto inacabado
É que sempre falta uma palavra inventada

Súbito cresce imensa paciência na testa,
As frases da face tornam-se menos estúpidas
E qualquer manhã, de pedra ou algodão,
É fruto vermelho se desmanchando na língua
Não! Não há rancores nas ventas, porque já conhecemos o ar inútil
Há sim, essas carícias, algumas conversações com os perfumes do mundo
E notícias equivocadas que insistem em borbulhar ao cair da noite
Minha cara ainda oculta uma linguagem intocável de resistência,
Pois é preciso descer as escadas com coragem,
E sossegadamente, até a escuridão

7 comentários:

Eleonora Marino Duarte disse...

Ira

ao inevitável, descer com dignidade!

Nossa!

Gostei muito.


Um beijo grande!

Tuca Zamagna disse...

Meus pobres cigarros vivem pouco, Ira, e sempre acabam no cinzeiro. Eu também quero acabar num cinzeiro, mas me aflige o mistério: que deus diabólico me fuma?

Nossa, minha desinformação não anda nada seletiva. Imagina que eu nem conhecia esse seu blog!

Beijos

Assis Freitas disse...

ausências e festas de estrelas: tudo me traga, me precipita, me incide em caos,


beijo

dade amorim disse...

Ira, não sei se meu comentário vai aparececer, houve um ERROR (putz).
Mas achei o poema belo, ajuizado e corajoso, além de verdadeiro.

Beijo beijo

Júlio Freitas disse...

No alvo!

Tania regina Contreiras disse...


Ira, às vezes acho que me falta algo fundamental na escrita: essa coragem que fazem da sua poesia tão magnética! Às vezes acho que ainda preciso tirar algumas lentes para poder alcançar nervos das palavras. E como admiro isso em você!

Beijos,

eurico portugal disse...

a escada em caracol enfeitiça as pernas, havendo diante dos lábios um buraco tão pequeno que quase nem damos por ele. há quem estenda os braços para tocar as cicatrizes do escuro, que são as suas, afinal, nesse labirinto de fumo, cilíndrico, a que erradamente chamamos de cigarro, mas que se escreve, afinal, com as letras, em anagrama, da própria vida. e tanto de nós a ser consumido em cada aspiração...

beijinho!