quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Subúrbio de Copa



Bairro de Copacabana, à noite, de pernas para o alto
E o asfalto quente ainda range as lambidas solares
Gatos sonsos de todas as cores com peles pardas
Ronronam pelas ruas instintos cínicos e milenares

Os feios, em tristezas sublimes, jantam e trepam
Romanticamente. Há um enorme desvelo do próprio afago
Amam melancólicos, e com tamanha devoção,
Como se soubessem a última palavra de quem sai

A moça miúda tem escroto e pau esmagados na calcinha
Lamenta bege a grana micha do único michê abocanhado
Pobre moça seca! Quem lhe trocou a alma ao nascer?
Quem lhe roubou o ventre e a deixou corpo estranhado?

Tenho dó! Tenho dó!

Entro no carro, rota nula, vago horas, olhar remexido,
Mas dirigir poupa-me o cérebro dos sentimentos. Não penso!

A avenida é atlântica, ampla e transgressora. Ela me dói.
O luxo das luzes sobre a homérica embriaguez dos que passam
Espíritos cheios de escombros, carnes furiosas
E ninguém sabe suas transparências, mas os vejo blackout

Discretos, alguns solitários conversam com guardanapos
Códigos de tinta. Confessam-se sombra sobre o branco do papel
Seriam namorados delicados se fossem apenas mortais,
Mas eles não morrem nem ameaçados de amar

Ouço sons bizarros, líquidos, por toda madrugada fingida
E, enquanto o mar violenta a areia pretendida com sua turbulência,
Há um mundo atravancando os sonhos dos esquecidos
O poeta está em seu lugar, na síntese do beco, onde não há censura

E o poeta é nó! É dó! É só!

Súbito nasce mais um dia, indiferente à demissão do breu,
Todos os desenganados se deprimem discretamente dando lugar ao sol
Penso que é urgente dormir minha estupidez em pânico
Antes que, pela orla zonza, essa humanidade miserável caminhe em paz




7 comentários:

Ana Cecilia Romeu disse...

Oh, Ira!
Um super retrato da noite carioca no rosto de Copacabana. Você disseca os seres noturnos e suas desventuras, e ainda coroa o sentir do poeta e toda a poesia. Poesia essa que, se não é salvação dos mundos e dos imundos, alimenta o nosso ser em todos os tempos.
Muito tri!

Grande beijo, minha lindona!

PS.: Saudades do Rio. Tenho um apreço especial pelos cariocas, algo que me completa.

jorge pimenta disse...

a arte do real, partindo de um foco em deambulação por um mundo que, sendo exterior, respira nas entranhas do poeta. cru, duro, real, como a chama que consome e purga ao mesmo tempo.
e, por instantes, revi cesário verde e o seu imenso mundo onde tudo o que passa ali é extensão daqui. impossível não entrar...

beijos, ira querida de palavra maior do que os olhos alcançam!

Dilmar Gomes disse...

Amiga Ira, onde sai a poetisa e onde entra a cronista ou vice-versa?
Um abração. Tenhas uma linda sexta-feira.

Tania regina Contreiras disse...


Uma poeta cronista? Uma leitora de almas à sombra da noite? Maravilhosa, Ira! Passeei com você e vi pelos seus olhos...

Beijos,

Cris de Souza disse...

Ira do céu, que anda bebendo?!?

Ci-ne-ma-to-grá--fi-co!!!

Beijão, queridófera.

Assis Freitas disse...

ainda hei de me ver nos salões de Copacabana, com meus pés chicoteando o asfalto e os olhos assoberbados de ilusão



beijo

Gyzelle Góes disse...

Oh céus, maravilhoso! Me deu até vontade de ir pra copacabana agora mesmo, sentir o vento acalmar a minha dor. Dor de poesia! Gostei muito, muito