quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Poeta Invisível




A cidade é adversa
Para os que partem
E voltam
Simplesmente voltam
Como outono e suas pálpebras cansadas
Corpo despido de folhas sobre silêncio agudo do chão
Levantam-se mortos, oceanos,
Taças de venenos,
Os movimentos não desconhecidos ateiam fogo
Aos ossos, na memória,
Porém há vozes jovens
Vestindo roupas febris
E delas nascem frutos que minha boca deseja
Devoro homens
E, homens, são todos crianças a espera do seio
Perdido!
Devoro luzes
E as luzes são faróis solitários que amam barcos
Perdidos!
Devoro noites
E as noites são arquipélagos de fósforos
Na tempestade
Caio em convulsão no transcurso cínico,
Entre o litoral impaciente
E a mata cautelosa,
Pois lá o mundo é cimento e a dureza me dói
Pouco a pouco, cada passo, pés mendigos de terra
Não penso mais em amor,
Os que enchem as mãos de desassossegos,
Hospitais, comas, velórios
Sinto imenso por mim que andei no eterno
Não penso mais nas vergonhas que povoam ruas,
De lutas, de santos, de mercadorias
Sinto imenso por mim que andei nua
A cidade é hostil
Pra quem é invisivelmente poeta
E parte,
E volta,
Jamais o mesmo verso

14 comentários:

LauraAlberto disse...

como fico contente de te ver, de te reler, de descobrir este teu novo blogue, Ira-Fénix
nem imaginas como encheste o meu peito de alegria...
és poeta, uma poeta do caraças e muito mas muito longe de ser invisível

[adorei as fotos, sobretudo a do blogue]

beijo

Fernanda Curcio e Leonardo Macedo disse...

Cheguei aqui através da indicação do Marcelo Rezende. Realmente, seus versos são belíssimos!

Abraços,

Fernanda

meus instantes e momentos disse...

sempre forte e cheio. O dedo de Ira !

A.S. disse...

O Poeta ama o silêncio, a beleza das coisas simples, a infinita luz que se liberta do poema, o infinito de todas as metáforas...


Beijos!
AL

Dario B. disse...

Ira, as pálpebras cansadas do outono é uma imagem nunca mais vou esquecer, perfeito. E lindo o blog, gostei de tudo, me sint oem casa, rs. Bjos.

Sandra Subtil disse...

Tu , invisível? Impossível. Quem escreve assim denuncia sempre a sua presença . Beijo

Joelma B. disse...

Um beco chamado caminho... ao menos sei ao que me leva: a voz brilhante de Ira!

escrevo o que minha pele inculta/incauta me dita/medita...

puro suspiro... puro espanto... puro arrepio!

beijo, querida! Muita poesia neste novo caminho!

Cris de Souza disse...

Poeta da tua grandeza é uma visão rara.

Beijo, Ira!

Assis Freitas disse...

o mesmo verso que é sempre o outro, o outro do outro




beijo

Fred Caju disse...

Tô contigo nessa nova caminhada. Beijão!

Lily disse...


Entre a mata e a praia, entre o amor e o cansaço dele, entre o nu e o tempo da coberta... e o poeta sobrevive, mesmo sem ser visto.

Suzana Guimarães - Lily

Cecília Romeu disse...

Ira, linda aquariana!
Ainda me encontro num período offline, por vários motivos, e não sei quando retorno, mas ler-te se faz totalmente inevitável, já o estava sendo lá pelo facebook.
Fico sinceramente muito feliz por teu novo espaço virtual, é vida que se renova, é a poesia e sua eterna continuação, pois saiba que estarei sempre por aqui para te acompanhar, ainda que eu esteja em off e sequer comente, mas a leitura atenta estará aqui, assim como a tua boa poesia, e dessa, não abro mão!
Beijos e beijos linda poeta!

AC disse...

A sua marca é inconfundível, Ira.
Bem-vinda!

Beijo :)

Paulo Sotter disse...

As imensas dores que a alma do poeta permeável recebe da frieza da cidade cinzenta e do mundo hostil. Lindo teu texto. Abraços