segunda-feira, 15 de abril de 2013

Gávea - Estrada de Escapadas





Tantas noites sonâmbulas de escapadas
O som da minha própria voz, na demo arranhada,
Lembrava canções que deveriam ser meu pão de cada dia,
Mas os novos padeiros não crêem mais no corpo de Cristo
Bando de filhas da puta comedores de descartáveis!
Agora só fabricam bizarras rosquinhas efêmeras

Tantas vezes arriscando o inesperado da curva:
Polícia! Bandido! Bandido-polícia! Esculacho!
Subindo a estrada da Gávea, com lenço e sem documento,
Para contemplar nossos abismos convenientes
Subindo sozinha, sóbria, até tocar o coração decadente do Umuarama
E encher a cara de cervejas, estrelas, luzes,
Como alguém inexato no interior do dancing

Lá, do alto, que é muito maior que tudo,
Toda a cidade mais parece uma nuvem de vaga-lumes adestrados
Que, hipnotizados com tanta beleza,                              
Piscam extasiados de espanto
Eis a fotografia do litoral cínico!

E eu que, sempre fui aquele vaga-lume sem bando,
Pousando sobre precipícios, cinicamente, forjava mortes populares,
Mas a língua, esse X9 incontrolável,
Salivava vontade capeta de viver

Pensava no poeta!
De Holanda,
No meu gosto por seus versos de homem
Tantas palavras ditas com astúcia feminina
Pensava em Chico!
Impressionava-me que, apenas, um homem
Pudesse guardar nos olhos tantas mulheres
- É da natureza das moças habitarem azuis melancólicos! –

Mas não é só isto, o trovador
Nele há um silêncio evidente de quem olha
Com o pensamento, demoradamente,
Tudo o que vê
E guarda como quem toca

E toca cada flutuação desse feminino
Com dedos de radiografia
Faces atormentadas, serenas, belas
Ou esquecidas;
Suas dores de ausências, de carpido;
Seus ventres desprotegidos, alguns cheios;
As cinturas com murmúrios de coisas terrenas;
Flancos criminosos confessos;
Súbitas alegrias irritantes saídas dos olhos como confusão

Pensava em Buarque porque era bom e era Gávea
Os dois precipitavam-me esquecimentos de cárceres,
Como se acordasse na pintura do artista sem vestido e relógio

Subia a estrada da Gávea como quem perde o caminho
E acha o beco. Destino!
Recolher os risos da cidade abaixo, e prendê-los nos lábios,
Enquanto os olhos desmantelam-se em lágrimas de amor por ela.


9 comentários:

jose reginaldo disse...

QUE MARAVILHA,IRACEMA,TUDO QUE NÃO CABE EM TI ESPARRAMA,EM FORMA DE POESIA.EMOCIONADO EM LE-LA.

Wilson Caritta disse...

Fico pensando..., pensando!
Como é densa e enérgica sua escrita, mantém a tensão do leitor, capaz de sugar o entendimento, a partir do texto. Transcendem aqui, suas letras vivas!...

bjo, bom dia!! Ira.

Eleonora Marino Duarte disse...

vi a cidade lá em baixo e me revi lá em cima....

maravilhoso, Iracema, poema e tema.


beijos, querida.

Domingos Barroso disse...

emocionado,
profundamente emocionado...

e quando se está assim
é bom um longo e belo
abraço
...

Tania regina Contreiras disse...


Nossa, essa morte popular e a salivação da vida, como tu é grande, menina, como têm vísceras teus versos, como gosto de te ler.

Beijos,

Marco Rocca disse...

Existencial, contemporâneo... Há uma argúcia, uma inquietude perene com o passar do tempo. Excelente!!

eurico portugal disse...

porque as pequenas mortes nos passam de lábio em lábio, como os beijos, nesse imenso azul que habita os olhos de um poeta.

beijo, trovadora da vida como ela só!

Cris de Souza disse...

Eis o espanto! Poderia ser: mirem-se no exemplo das mulheres de antenas...

Você é foda!E Chico, dispensa apresentação...

Beijão.

Assis Freitas disse...

astúcia, astúcia
na tua palavra versa singular



beijo