domingo, 10 de março de 2013

Rota Imprevista para Mulheres sem Batom





Ela sabe de cicatrizes barulhentas e abertas que doem tripas, coração, mais cervical. Ela sabe de dores que não se grita nem propaga.

Nasceu fêmea de pai e de mãe e, pertencendo-lhe o mistério do ventre, não hesitou em abrir as pálpebras com coragem.

Mulher, de sangue exuberante e prodigioso, sua verdade é flama! Não temas arrastar pecados pelo chão, nem trame culpas, pois sua alma possui antídoto para venenos cínicos e é tão abundante que permanece nos frutos que nascem do fogo.

Saber-se enigma, dentro da própria casca, é dor inacabável, ainda mais quando raízes destemidas furam a terra e, respirando o mundo, se alongam até o céu. Mas o que é a menina senão dor de delícias?

Apenas as fêmeas sabem que é preciso, antes do alívio, queimar-se!

O certo para o futuro seria amputar qualquer idéia amorosa, já que adivinhara o final muito precocemente: solidão!
Havia essa canção que cantava desertos nas mãos e, chegou cedo, quando os ouvidos ainda estavam abertos.

Entre colecionar rotas mortas e caminhar por corpos adversários sua velha carcaça infligiu-lhe submersão e, no silêncio escuro do fundo, abrigou-se adequadamente, assim, as feridas não ofereceriam mais perigo de insônia.
O outono tombou sobre os cílios que, pintados de esquecimento, acostumaram-se ao sono, mas há um relógio moleque que desperta pálpebras e ele sempre berra

Cai-lhe, então, no colo, o acaso! Um menino que, pronto pra ser homem, dá de ri dessa mulher incrédula e desistida.
Risca-lhe o velho tronco com poemas encarnados. Ela gosta da cor! Que cabe nas unhas, que cabe na boca e no coraçãozinho que escondeu no estômago do oceano

Ela sempre acreditou que a dor fosse uma mulher sem batom!

Acreditou merecer essa desistência, afinal, já havia rompido com a feição e restara um fio de medo mais afiado que navalha de puta.

 Desprezou o imprevisível, sua alma! Esse lugar sem mapas que de lágrimas ri, que de silêncio grita, que de morrer nasce.
O menino a invade e, com pétalas na língua, ela flutua em encantos. Qualquer sentido ficaria guardado em um reino que ninguém jamais viu.

Ele tinha na cabeça o equador de todas as coisas e existia homem para fazê-la doce nas horas cítricas
Ele existia homem para fazê-la solta, numa simplicidade infantil, porque conhecia as pipas

Colheram estrelas que iluminaram o alfabeto do tempo, os dias de eternidades e dedos que escreveriam vidas sem cópias
Ele existia homem e ela o deixava ser!







3 comentários:

Domingos Barroso disse...

esplêndido,
esplêndido
...


beijo-te
carinhosamente...

Marcelo R. Rezende disse...

Já tava a sentir falta dos seus escritos mais longos e você me aparece com isso. Ira, vocêéde matar.

Lindo. A fêmea tem uma coisa de dor que eu ainda não entendo. Como que pedisse, meso que não goste. E quando gosta, censura.

Toda dor, quando aflita, não cabe bem na pessoa, mas a fêmea, me parece, prefere.

Espero que a fêmea em questão aprenda a flutuar e manter-se nas nuvens que esse menino a levou.

Nada mais gostoso que uma língua sabida.

Beijão <3

Lily disse...


Olha só o comentário do Marcelo... demais!

Beijos.

Suzana Guimarães, a Lily