sexta-feira, 22 de março de 2013

Poema Suicida para Poetas Inocentes






O poema deveria andar de boca em boca
Feito felação, falação de vida alheia, drops
Inevitável obscenidade

Teria que ser pintado, ad infinitum, 
Nas portas dos banheiros sujos dos bares cínicos,
Nas molduras dos inúteis pórticos palacianos
E por todos os muros acadêmicos que fabricam insuficiências

Pense na poesia com sua aguardente hibrida
Invadindo o humano na veia, lentamente,
De gole em gole, embriagando olhares. Pense!

Nesse hábito de escarro

O poema deveria circular por baixo das saias
Das moças invictas e, sem motivo algum, sangrar
Das outras, moças distantes dos diários,
Que o poema bolinasse seus mamilos,
Quase todos tristes, até o desabafo

Carecia muitíssimo que os versos pousassem
Nas mãos punheteiras dos homens
- Todos sempre meninos competindo tamanho –
E lambessem, com licença poética, seus dedos bisbilhoteiros

O poema merecia ser declamado em via pública
Para ser beijado por todas as bocas
E, saindo de olhos pensativos rumo aos ventos amenos,
Seria multiplicado por mãos escancaradas
Mãos que carregam na pele marcas febris
Tanta celebração em nome dos caídos, dos farrapos,
Dos ausentes que desdobram suas almas
Porque é imprescindível voltar
E quando a polícia invadisse a praça, com sua raiva latente,
A imensa paisagem estaria infância
Crianças balançando sonhos, apenas

O poema deveria ser lida e fornicação,
Criatura que habita o tudo e o nada que se vê,
Mas é só mais um suicida no asfalto

E os poetas, todos inocentes, aguardam o rabecão
Para o sumiço do corpo.

9 comentários:

Assis Freitas disse...

falo
felato

cavitas
oris



beijo

Domingos Barroso disse...

o mais delicioso dos teus poemas é essa paixão entre o mais tenro
e o mais bestial
...

beijo carinhoso...

Tania regina Contreiras disse...


Essa tua alma é de uma beleza tão verídica, tão sangrenta, tão furiosa e tão terna...Essa tua alma me pertence tantas vezes, e eu pego ela e saio por aí me achando o máximo!

Beijos, poeta maravilhosa.

Lily disse...


Ira,

Destaco esta parte:

"O poema deveria circular por baixo das saias
Das moças invictas e, sem motivo algum, sangrar
Das outras, moças distantes dos diários,
Que o poema bolinasse seus mamilos,
Quase todos tristes, até o desabafo"

Texto lindo do início ao fim, mas essa parte me tocou muito.

Beijos, parabéns!

Suzana Guimarães, a Lily.

Eleonora Marino Duarte disse...

poetemo-nos!!!!


adorei!!!


um beijo, querida.

eurico portugal disse...

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina

a poeisa-gente é tudo aquilo que aqui me traz... e que daqui levo.

beijos, ira querida!

Sandra Subtil disse...

Show! Tu és grande, Ira!
Beijos

Carolina disse...

Simplesmente: genial. do principio ao fim.

Mateus Medina disse...

" E quando a polícia invadisse a praça, com sua raiva latente,
A imensa paisagem estaria infância
Crianças balançando sonhos, apenas"

Sensacional!