terça-feira, 12 de março de 2013

Ensaio para Impossibilidades Possíveis








Levanto-me na manhã que ontem implorei

- Oh, Deus, meu espírito é feito de bichos carniceiros!

- Quero tua existência, então!

Aquela que agasalha os corações dos vagabundos,

Enquanto os intelectuais a desprezam nas tintas sabichonas

Quero mil auroras douradas apontando crânios

E peles enrabichadas de outras peles

Tua piedade esclerótica, Senhor!
Pois à noite tenho fraquezas miseráveis

- é na escuridão que a matilha afia os caninos! –

Acordo no primeiro barulho de luz e, sob teto opressor,
Abro os olhos sujos das ânsias que pouco divulgo
No mesmo instante, há enfrentamentos brutais
Que contaminam a carne com palavras condenadas
Erguem-se labirintos birrentos
E é lá que habita o artista solitário

- já é hora de contrair o abdômen até a chegada do soco! –

Saio de casa com uma ilusão que jamais se emenda:
Esquinas povoadas por loucos que, delirando poemas,
Atiram versos nas quase vidas que passam
E a poesia, em estado de graça,
Segue infiltrando beleza nos subterrâneos fétidos dos homens,
De verso em verso, vencendo serpentes e paraísos

Ando. Tudo é áspero, poeirento e magoado
Ando. Pouco é luto, equilíbrio e fruto
Serei eu, então, a louca que protege a lira de Apolo,
Como mamãezinha amantíssima
Ou o mais estúpido fantasma renunciando razoabilidades?
Minha sombra ronda os estrondos da morte,
Porém, a face se assanha diante das impossibilidades
E cruza a linha do mundo visível
Deus, não levante contra mim palavras exatas
Que resistam aos suspiros voadores
Deixe-me viver sob tortura Dionisíaca e,
Se for sina essa lira embriagada, não me poupes à taça cheia
Saberei matar-me sobre as cartas de Pessoa a Ofélia,
Meu corpo pousado em cada sentimento,
Como um lenço silencioso tocando a pele úmida
E não há quem me impeça de invadir o poeta

Levanto-me!

Porque esse verbo, sempre, me parece impossível



6 comentários:

Assis Freitas disse...

porque os impossíveis são os melhores trilhos,



beijos

Dilmar Gomes disse...

Ira, vim aqui apreciar teu belo, profundo e denso poema.
Um abração. Tenhas um lindo dia.

Marco Rocca disse...

Existencialista, embora tétrico. O personagem não vê futuro... Talvez a poesia seja isto mesmo uma elucubração sem jamais apontar qualquer solução... Parabéns poetisa!

Eleonora Marino Duarte disse...

vou levar comigo, Ira:
«minha face se assanha diante das impossibilidades.»

como eu gosto da sua poesia, moça!


um beijo.

dade amorim disse...

Ira, teus poemas são de uma originalidade incrível. Além disso, são densos e exigem uma leitura justa. Gosto mesmo do que vc escreve.

Um beijo grande.

eurico portugal disse...

quando parece impossível... já é possível. porque quando parece, ou é ou não é. e ser e não ser são, afinal, variações de uma mesma essência.

beijos!

p.s. o título é já um poema inteiro!